Bira e as Safadezas...

Putarias, meditações, reinas e narrativas de um anarquista heterodoxo

Bira e as Safadezas...

Putarias, meditações, reinas e narrativas de um anarquista heterodoxo
<  Junho 2008  >
S T Q Q S S D
            1
2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15
16 17 18 19 20 21 22
23 24 25 26 27 28 29
30
Blogs Favoritos
Receba os posts
Terra Blog

23.03.07

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA 5

categorias: Narrativas

     De volta a Posadas, na tarde de segunda-feira, tive, na calçada do café mais "chique" da cidade um destes raros momentos em que o espaço se abre à nossa frente e nos vemos lançados numa dimensão fora do tempo. Tomando uma Quilmes, mais uma vez, com o alemão Valdir, me dedicava a um dos meus esportes preferidos (espreitar mulher boa na rua), quando dei com aquela moreninha, de cabelos negros e nariz afilado, simplesmente linda e misteriosa como uma esfinge (possivelmente mestiça de índios e espanhóis), num vestido bege que lhe desenhava perfeitamente o corpo esguio e saboroso.

     A deusa descida na terra ia caminhando junto à vitrine do café, a minha direita, e para sorte dos meus olhos, acabou por sentar-se na mesa onde estava a "espiã" no outro dia. Encarei-a e, quando menos esperava, ela, se levantando, me olha pergunta, se dirigindo para uma mesa à minha frente: "eestá ocupada". Quase desmaiei e lhe respondi laconicamente no meu precário castelhano um "no", para ouvir daquela voz paradisíaca um "muchas gracias" e lhe responder "no sea por eso".

     Este foi o formal e seco diálogo que mantivemos, mas o simples fato daquela criatura apaixonante falar comigo me deixou doido. A morena sentou-se e puxou do que pensei ser uma revista (mais tarde, quando já havia ido embora, fui até a mesa e verifiquei que eram prospectos de uma loja), e imaginei que iria se repetir a cena da loira do dia anterior. Mas logo chegou uma amiga e sentou-se à sua mesa.

     É evidente que não despreguei os olhos da gatinha e tive a ocasião de vê-la mencionar-me à amiga, que voltou-se para trás, me espiando, umas duas vezes. Lá pelas tantas a coisinha linda foi ao interior do restaurante e, voltando com uma caneta, começou a escrever. O idiota aqui imaginou que iria receber um torpedo, mas conversaram mais um pouco e se mandaram, as duas, depois de uns vinte minutos.

     A gata era tão impressionante, tinha um rosto tão decidido e enigmático, além do corpo voluptuoso, que cheguei a viajar e imaginar um romance ambientando em Posadas, a um passo do Paraguai, no qual o personagem principal, um jornalista desempregado, encontra a guria e acabava se envolvendo em mil peripécias, com direito a uma trama de espionagem e guerrilha. Quem sabe um dia eu o escreva. Mas o fato é que, diante daquela caboclinha, a capital de Misiones transfigurou-se  e eu de repente vi uma cidade aprazível, numa encruzilhada internacional do mundo, ao mesmo tempo provinciana e populosa, na qual bem gostaria de morar. Viva o romantismo sem concerto.

 

Ubirajara Passos

Nenhum comentário
Comente este post:




Seu e-mail não será mostrado neste site.




tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, a, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
URLs, e-mail's, AIM e ICQs serão convertidos automaticamente.