Bira e as Safadezas...

Putarias, meditações, reinas e narrativas de um anarquista heterodoxo

Bira e as Safadezas...

Putarias, meditações, reinas e narrativas de um anarquista heterodoxo
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Terra Blog

Categoria: "Reinas"

19.04.07

DESENCANTO

     Embora algumas idéias para postar no blog me passem raspando pelos cornos, a verdade é que não tenho o menor saco de parir algo novo. Assim, publico o poema abaixo que, além de exonerar da obrigação de escrever, é um espelho fiel do meu humor nas últimas semanas.

DESENCANTO

De que me vale o canto revolucionário,
O lírico encantamento
Das coisas e dos seres?

De que me vale o sentido íntimo e profundo
Da beleza e do mistério
De um campo solitário e desolado,
De verdes prados em tarde enuviada,
Da ventania que, gélida e arisca,
Na sua infinda jornada,
Cavalga os campos, tudo a arrastar?

De que me vale o enlevo do universo
Na solidão das noites
Estreladas ou de luar?

De que me vale conhecer da Humanidade
Profundas as mazelas em que imerge-se,
Nos turbilhões dos temporais da vida,
Perdida, sem farol, a navegar?

De que me valem os ímpetos
De rebeldia, buscando levantar
Do insólito sono crepuscular
As consciências desde muito adormecidas?

Se sou “uma voz que clama no deserto”?
Se não ouvem meus gritos, até fatigar?
Se a tempestade avassaladora da inconsciência,
Da falta da Razão, de Liberdade,
A tudo envolve e teima em arrastar?

Se a própria vida, em suas terríveis roscas,
Tudo esmaga e a mim mesmo
Envolve nas vagas frustradoras
De seu imenso mar?


Gravataí, 10 de junho de 1990

Ubirajara Passos

10.04.07

UMA REINA AMOROSA

categorias: Poemas, "Reinas"

     Na volta de São Paulo, onde estive em 25 março (no Encontro Nacional em defesa da aposentadoria e dos direitos sociais, sindicais e trabalhistas) pela caravana do Sindjus-RS e da Conlutas (mais de 6.000 trabalhadores lotando o ginásio do Ibirapuera e dispostos a resistir aos ataques do fascismo lulista), tive uma paralisia do nervo radial do braço direito, que só após passar por dois hospitais e uma competentíssima neurologista  (Mariana Dagnino Araujo) me convenci ser mera lesão local, decorrente de dormir pressionando o braço contra o banco do ônibus, na manguaça.

     Mas a tensão gerada pelo episódio (imagina acordar com a mão direita dormente, sem força e sem condições de motricidade fina nos dedos menores que o indicador?), aliada à depressão que ando curtindo, os dias passados em torno de exames médicos e uma quase-broxada que dei com a gata preferida (resultado de ressaca e outro ataque de nervos que narro outra hora), simplesmente me afastaram completamente deste blog, cujas visitas diárias despencaram ao fundo do abismo.

     Assim, para dar alguma distração àqueles leitores que ainda tenham algum interesse no que escrevo (que espero se tornar melhor à medida em que avance o tratamento anti-depressivo) e aos que andam desiludidos com suas buscas amorosas, publico o poema pessimista abaixo, que um dia há de deixar de ser realidade.

Apenas Vultos


Por quantas sombras sofri,
Por quantos olhos
Que prometiam fogos além do concebível;
Por quantas almas de fascínio imprevisível,
Por quanto gozo físico incomum
Ardi nas chamas da “paixão sem freio”?

Como sofri, apartado do amor,
Da encarnação do sublime,
Dessas mulheres arrebatadoras?

Quanto gastei em reais e madrugadas
Na busca do sagrado feminino
Pra descobrir que tudo é árida terra!



Gravataí, 29 de maio de 2005.

Ubirajara Passos

13.03.07

SONETO EM VERSOS BRANCOS

categorias: Poemas, "Reinas"

     O cansaço, a ressaca mal-curada e a depressão resultante, dos últimos dias é o responsável pela minha ausência deste  blog, que está tão sem graça que ninguém mais acessa. Mas se houver, aí do outro lado, um leitor tão na fossa quanto eu, curta o sonetinho abaixo, parido às vésperas de me apaixonar pelo grande amor da minha vida.

 

 

 

SONETO EM VERSOS “BRANCOS”

 

Enlouqueci.

Um anjo mau tomou-me

Todo prazer de amar ou de viver.

Não sinto já o mínimo entusiasmo

E o mundo todo é cinza à minha volta.

 

Sem justificativa racional, um diabo interno

Decretou-me o infortúnio infinito,

A autopunição neste inferno

Em que sequer o sofrimento é sentido.

 

Tudo é aridez de alma, é marasmo,

Mediocridade e imersão no inanimado.

Até um rochedo do que eu possui mais vida!

 

O amor, então, foi pra tão longe

Que não restou nem o tesão dos brutos,

Mas apenas uma náusea enfastiada!

 

Gravataí, 15 de novembro de 1999

 

Ubirajara Passos

03.03.07

NOSSA SENHORA DAS ASNEIRAS

categorias: Poemas, "Reinas"

     Uma foda dramática, entre cínicas declarações de desamor, com a gata preferida, mais uma incursão noturna na safadeza, junto com meu amigo xupaxota, em cujo apartamento curti a ressaca amorosa e alcoólico-sexual, ontem, me deixaram completamente impossibilitado de escrever. Tenham, portanto, paciência os leitores, que até amanhã principiaremos as crônicas "internacionais". Até lá,  fica aí mais um poeminha cretino.

 

 

 

N. SRA. DAS ASNEIRAS

 

Que incrível vertigem, que absurdo

Me envolve, neurótico, no fútil,

Vulgarizando o embevecimento.

 

Mediocridade, santa dos mortais,

 Vai inspirar os imbecis convictos,

Que para eles tu és a Redentora.

 

Longe de mim,

Gênio dos horrores,

Que a alma do artista sufocas na besteira.

 

Gravataí, 7 de dezembro de 2000.

 

Ubirajara Passos

28.02.07

DEPRESSÃO

categorias: Poemas, "Reinas"

     Mil perdões aos leitores (que, pela estatística de hoje, parecem ter debandado), mas inúmeras casualidades (entre elas a preguiça homérica  que nos dá o calor santa-rosense e o festival de trago após a volta da Argentina, no final do carnaval) me impediram de postar algo novo.

     Estive em Oberá e Posadas (a segunda cidade e a capital da província argentina de Misiones) em Encarnación (cidade paraguaia que faz fronteira com Posadas, separada que é desta pelo Rio Paraná) entre o domingo e a terça-feira de carnaval e somente hoje à noite (há uma hora atrás) retornei de Santa Rosa para Gravataí. Amanhã principio uma série de crônicas narrando as aventuras e desventuras da viagem internacional. Por hoje deixo os meus desconsolados leitores na companhia de um velho poeminha de fossa filosófica.

 

DEPRESSÃO

(Isto é Poesia?)

 

“O crepúsculo esbraseia no horizonte”,

Tudo se esvai e, insosso, sem sentido,

Sigo o “pulsar frenético das horas”;

Sem interesse, envolto em tédio.

 

O amargor da alma me espicaça;

Estranhamente, ainda que o não queira,

A depressão invade-me o espírito.

Cada centímetro, descolorido,

O mundo esvai-se e se dissolve em minha mente.

Nem sequer forças para lamentar

Tem minha alma e o único prazer

Que encontra, estranho, abastardo,

É o sofrimento.

 

Só um impulso, desgastante, violento,

Terrível satisfaz-me;

E, após, violento, o cansaço se me abate.

Não tenho forças, sequer, para o suicídio.

 

Gravataí, 23 de agosto de 1992

 

Ubirajara Passos