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Em março de 2001 o meu grande amor se afastava de mim para viver por cerca de um ano com a sua paixão do momento. E as suas atitudes de recusa completa para comigo acabaram por inspirar o poeminha safado que segue.
Corpo Interdito
Psicose tamanha, minha “freira”,
Te faz, sapiente das minhas intenções,
Histérica, onça doida e refratária,
E te coloca nos lábios puritanos
O “não-me-toques”, se a tua alma é bolinada,
Sugada, rasgada em cada pensamento
Lascivo;
Se o teu corpo é lacerado, engolido,
Cuspido, “re-fudido”, ruminado,
E indecentemente “maculado”
No apalpar sem posse, nem sadismo
Do meu olhar titilante e embevecido.
Gravataí, 14 de março de 2001
Ubirajara Passos

criado por ubirajara.passos
23:59:16Narra um velho mito grego, ao qual o próprio Machado de Assis dedicou um conto, que Pandora foi a primeira mulher da humanidade e, ao abrir a boceta (uma pequena bolsa) que lhe foi dada por Zeus, deixou dela escapar, invonlutariamente, todos os males e misérias, que nela estavam presos, e que, desde então, nos afligem. Teria restado, no fundo da bolsa, apenas a esperança, para consolo dos mortais.
Nesta modorrenta e quente noite de sábado, fui ao banheiro dar uma mijada, pensando em que texto poderia escrever para este blog, quando me saltou do cérebro o paralelo da mitológica boceta com a nossa buceta nacional (a xoxota), que prefiro grafar com "u", na forma mais popular possível, porque ganhou desde há muito um significado autônomo, completamente diverso do de bolsinha (os dicionários deveriam, mesmo, fazer constar uma palavra nova, "buceta", além da boceta já existente, que, aliás, ficaria melhor se fosse escrita e pronunciada como bolseta).
Pois, assim como da bolsa da pandora, da buceta também já sairam as piores pragas que assolaram a vida de milhares de gerações, ainda que dela também tenham vindo criaturas geniais e de uma dedicação fantástica às questões profundas da vida humana, como Wilhelm Reich, Karl Marx, Friedrich Nietzche, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Garcia Lorca, Dante, Epicuro, Buda, Sócrates, Bakunin, Kropotkin, Oscar Wilde, Gregório de Matos, Carl Jung, Che Guevara, Albert Einstein, Richard Bach, Reminguay, Castro Alves, Getúlio Vargas, Evita Perón, Rosa Luxemburgo e uma interminável lista.
Quando me lembro que Lula, Hitler, George Bush, Carlos Lacerda, Nero (este até que era meio divertido, pois nomeou Bucéfalo, o seu cavalo, senador e criou um bordel com as esposas dos nobres), Médici, Sarney, George Fridmann, Tarso Genro (que só cito, tão medíocre é, pelo tamanho "oceânico" de sua fama de dotô), Yeda Crusius, Mussolini, Stalin, e todos beatos moralistas da Igreja Católica e do PT, assim como os falcatruas pastores neopentecostais, saíram de uma buceta, fico imaginando se a culpa foi dela, da foda ou do caralho.
Mas o fato é que, embora a foda mais apaixonante e prazerosa possa acabar por gerar um monstro destes (já que não há na natureza relação imediata de causa e efeito entre o caráter da buceta e de seus filhos, a coisa é acidental e, muitas vezes, infeliz!), a única coisa certa é que de tais seres tem se originado a condição que impede ou torna sem graça e nociva a foda e o quotidiano de multidões, empesteando-lhes a vida e perpetuando a desgraça dos que trabalham sem ver o produto de seu fardo.
Há, é claro, certas excessões na longa lista de carrascos da humanidade. Júlio César (que deu nome ao parto por abertura do ventre) não veio da buceta, embora tenha sido fecundado nela. E, talvez por isto, conserve (como Napoleão, que não sei se nasceu de buceta ou cesariana, mas pode ter sido também "cagado") uma certa aura de popular defensor dos oprimidos.
Já nós, humildes filhos da buceta, revolucionários ou oprimidos alienados (a perpetuar a opressão nos menores atos em relação a nossos companheiros), que sofremos, impomos e contestamos as conseqüências de pensamentos, decisões e atos dos grandes filhos da buceta (sejam filhos do simples prazer ou "filhos da puta") não temos outro caminho, se não quisermos permanecer como eternas vítimas co-responsáveis das taras, interesses e safadezas dos "nobres descendentes da vagina" (impecáveis dominadores de alto coturno, sejam políticos, canastrões donos de empresas ou empolados "guias" intelectuais), senão eleger como máxima prioridade o prazer e a liberdade a que nos destinou, como o legítimo bem-estar de todo ser vivente, a grande buceta chamada vida. E das nossas fodas transcendentes, da oração carnal que constitui o gozo, poderá não se reproduzir mecânica e materialmente uma humanidade feliz, livre e solidária, mas se reproduzirá, no âmago de cada um, a alegria imediata de existir, apesar da precariedade de nossa condição mortal.
Ubirajara Passos

criado por ubirajara.passos
21:56:57Com o arrocho salarial e o desemprego devastador resultantes da política econômica do Inácio, o expediente dos estabelecimentos comerciais de fornecer aos clientes aquele cartãozinho que permite, a cada dez visitas nele marcadas, o consumo de um produto de graça na décima primeira (ou qualquer outro sistema de "fidelização" equivalente) já não se restringe a locadoras de filmes ou lancherias.
Há alguns meses, tendo ido ao motel com a gata preferida, tive um ataque de riso que quase me mata de asfixia! Com o ar mais grave e artificial possível, a recepcionista, ao cobrar-me a conta na saída, me anunciou, com toda a pompa de um gerente de financeira falcatrua, que agora eu tinha direito ao cartão de fidelidade do motel. A cada dez fodas , eu teria direito a uma trepada totalmente gratuita nas suas suítes!
Passado o surto de hiena, não me agüentei e lhe perguntei, com o ar mais debochado possível, se, para valer, a fidelidade do cartão deveria incluir os mesmos parceiros ou eu poderia levar lá outras gatas, e se eu ou a gata poderíamos utilizar o mesmo cartão, trepando com outros machos e fêmeas. "O senhor faça o que quiser. Desde que seja em nosso motel, está valendo a promoção, que, aliás, é muito boa: o senhor não necessita nem gostar muito de sexo. As dez visitas podem ocorrer no espaço de um ano". Com esta resposta, mais "peremptória" que discurso xaroposo falcatrua de petista metido a intelectual, murchei e, devidamente carimbado, coloquei humildemente o cartãozinho na carteira.
Mas, desde então, obcecou-me um desconcertante insight. Ao invés dos velhos deveres do casamento compulsivo e das exigências da escravidão doméstica e sexual disfarçada (aquela em que a mulher se mantém como "Amélia" e gueixa e não desgruda do sujeito, em troca do que o gordo bolso lhe proporciona), uma solução, mais prática e prazerosa, para os conservadores apavorados (e os apaixonados incorrigíveis) com a inexistência generalizada de parceiros fixos seria a instituição da fidelidade sexual premiada.
A cada meia-dúzia de fodas em determinado período entre o mesmo casal, cada um dos protagonistas teria direito a receber do outro uma chupada com sorvete até acabar; um sexo anal romântico à luz de velas, com champanhe e flores; um sessenta-e-nove com pimenta e outros tantos requintes e excentridades que dão sabor à putaria. Este simples expediente garantiria o equilíbrio emocional de meia-humanidade e botaria abaixo até o ranço fascista "globalizado", abrindo as portas da revolução! "Viva Fidel"!
Ubirajara Passos

criado por ubirajara.passos
00:21:34Não, meus camaradas. Não andei fumando maconha estragada, nem tomando chá de bosta de vaca. Simplesmente, agora que o estoque de textos prontos vai se esvaindo, e vou publicando os poemas e dissertações menos originais, a necessidade de manter um comentário ou crônica diários acaba por gerar títulos como o deste post, que mistura entes totalmente estranhos entre si como xoxota e lentes. Estranheza, é bem verdade, aparente, pois, como será "cabalmente demonstrado ao longo desta crônica", ambas as coisas possuem bem maior identidade do que o fato de pertencerem ao quotidiano das minhas preocupações e experiências relevantes, atualmente.
Desde os dezoito anos, no final do 2.º grau (curso Técnico em Contabilidade), que sofro de astigmatismo (que auto-diagnostiquei ao perceber os primeiros sinais de raios luminosos borrando o perfil dos objetos), sem que jamais tivesse procurado um oftalmologista. Quando ingressei no serviço público, aos vinte e dois anos, por pouco não fui reprovado no exame "biométrico" .
Muito embora, com o tempo, fosse se manifestando uma certa dificuldade de enxergar ao longe e a diminuição da acuidade visual, como conseguia ler, andar por aí e fazer tudo sem maior dificuldade, exceto ler placas de rua ou os letreiros das linhas de ônibus, me acostumei com o ceratocone e me julgava muito superior aos míopes e hipermétropes, que eu não precisava de óculos e aquele franzir de olhos (de que resultaram boas rugas na cara) resolvia, sem mexer no bolso, os mínimos problemas óticos.
Mas a intenção de cursar a auto-escola (em cujo exame oftálmico prévio eu faltamente levaria bomba) me conduziu aos braços da oculista (pois já que tinha de consultar a médico, programa a que tenho verdadeira ojeriza, que fosse uma mulher: aturar barbado de guarda-pó branco a receitar-me a "cura" seria o supremo masoquismo). E, comprados e colocados os óculos, tive algumas surpresas nada óbvias para a minha sapiência de "médico caipira". Primeiro descobri que andara quase às cegas. Um mundo novo, de cores e imagens precisas e brilhantes, saltou-me à frente e, com um mês de uso dos olhos postiços, ainda imagino, às vezes, não estar vendo, através deles, imagens reais, mas algo virtual, como a tela da TV, tamanha é a diferença do que estava acostumado a enxergar nos últimos vinte e três anos.
Constatei também, com um prazer e um tesão inéditos, que as gostosinhas que andam rebolando pela rua são muito mais apetitosas do que via! Mas, como todo remendo, por mais sofisticado que seja, os óculos têm lá os seus limites e (invejosos e impertinentes) possuem a mania de nos transmiti-los. Assim é que me dei por conta, puto da vida, que a minha visão "periférica" (não o rabo do olho, mas o plano que fica fora do foco imediato das lentes) se tornou completamente prejudicada.
Tarado contumaz e curioso dissimulado, costumava, para evitar a censura e a encrenca do olhar alheio, espiar mulher boa e excentricidades com um simples golpe de vista. Entretanto, com os óculos, se o fizesse, me arriscava a ver a imagem distorcida (especialmente se grande e próxima), truncada no limite da borda das lentes. A solução possível seria "usar a cabeça" e deslocar o rosto. Com o que qualquer sujeito esquisito que andasse na minha lateral veria que eu o estava encarando. Adeus expediente de seguir reto, com o nariz hipocritamente voltado para a frente e o olhar desviado para os lados, a espreitar os outros!
Porém, como não resisto àquela olhadela de soslaio, já encarei, pescoço torcido para o lado, muita coisinha linda a me fazer caretas e muito marmanjo ridículo invocado a me rosnar de raiva: que que é tio, tá pensando que eu tô cagado ou tâ a fim dumas bolachas?
Foi aí que dei-me conta do real tamanho da hipocrisia humana. Parafraseando a velha frasesinha, "quem tá na rua é pra se olhar"! Mas todo mundo anda como zumbi, fazendo de conta que não há mais ninguém no mundo e (embora espie com o prazer mais fofoqueiro as "excentricidades" alheias) age como se estivesse num aquário de um único peixe: não admite a menor interferência manifesta do olhar de outrem.
Especialmente, no caso das gatinhas gostosas, a coisa é um disparate. A menor espiadela tímida em direção às suas roliças e desnudas coxas e eis projetada na tela de suas '"devassas" mentes a nossa "tara condenável". Pois outro dia, pesquisando na internet uma das mais belas palavras da língua portuguesa, dei, num blog cujo autor já não recordo, com um poema à buceta que expõe, em versos os mais comuns, o rídiculo da nossa sociedade, construída sobre a recusa não só do maior dos prazeres ( o sexo), mas na apologia do sofrimento e na rejeição, irracional, ao corpo. Dizia lá o sujeito que mesmo as mais recatadas e puras senhoras, as mais pudicas e hipócritas "moçoilas", das que tem ataques de estupor ou fúria à mera menção da palavra "buceta", mesmo elas possuem uma xoxota!
E aqui fica a constatação lógica mais ingênua, e correta, possível. Que inferno de cultura é esta que não entende por que seus membros (na grande totalidade) são infelizes , e expressa, nos seus tabus linguísticos, uma fúria digna de hecatombe nuclear contra uma simples parte do corpo humano, tão ou mais "digna" (e bem mais interessante) como outras tantas, como orelhas, mãos, pés e cotovelos, mas cuja simples menção parece invocar os maiores desastres do universo? Só mesmo o sadismo e a perfídia capazes de nos reduzir, a nós povão trabalhador esfalfado e miserável, a mero objetos de uso de uns poucos burgueses (e antigamente senhores feudais ou de escravos, o que dá no mesmo) é capaz de rejeitar e criar encrenca com algo que, além da suprema preciosidade que a capacidade de dar e sentir prazer lhe reveste, é responsável pela origem e continuidade da própria espécie! Pois, como dizia o meu caro poeta, "somos todos filhos da buceta!".
Post scriptum: se o leitor ainda não entendeu o que tem a ver a buceta com os óculos, uma recomendação: verifique como anda sua visão "mental"!
Ubirajara Passos

criado por ubirajara.passos
00:51:17Em maio de 2002 eu andava numa fase violenta de transição na minha vida. A minha grande paixão amorosa frustrada havia rendido alguns episódios em que a minha situação financeira me levara à insolvência completa e, por insistência eo companheiro Valdir (o da República) eu iniciava uma psicoterapia, na qual me descobriria definitivamente DDA. No primeiro dia de consulta, vindo da cidade baixa eu passaria pela extremidade sul da Marechal Floriano, no centro de Porto Alegre, sem me dar por conta e o episódio inspiraria o poema auto-biográfico de hoje.
MADRUGADA PERDIDA.
Em meio à voragem dos tormentos do hoje,
Lançado em piparotes de uma angústia à outra,
Cruzei, indiferente, a velha rua
E, cavalgando as próprias histerias,
Subi a ladeira, sem reconhecê-la.
O sol ainda não se havia posto
E aquela sucessão insossa de lojinhas
Me entediava e nada me dizia.
Só a imponência gris do Sevigné
Sussurrou-me, íntima, onde me encontrava:
A Marechal Floriano das orgias De álcool, discursos, muita putaria,
De sonhos de potência e falhas trágicas,
Sua face diurna comum e deprimente,
Como a das próprias putas nas manhãs,
Na claridade impiedosa, eu desconhecia.
Era a morena Marechal das madrugadas,
Das bravatas e transportes de prazer,
Do reino mágico de liberdade e êxtase,
Da independência malcriada da embriaguez,
A minha cortesã amada e preferida.
Desci a ladeira e fui em busca, em pleno dia,
Do meu primeiro templo do prazer
E ali encontrei não o “Bagdá”.
Havia em seu lugar um antiquário.
Quanta ironia! Também eu já era
Não mais o mesmo de uns poucos anos.
Como o extinto cabaré, me transformara,
Na frontaria irreconhecível
Do meu passado recente, mas distante.
Quem imaginaria o rebuliço,
Os gozos, as disputas, as loucuras,
A agitação bêbada e frenética,
Falsa, mas tão real dentro de nós?
Na fachada do velho casarão, na minha face
Não poderia mais se ler a alegria.
Tudo são cinzas, tudo hoje é passado.
A gravidade penetrou-me até os poros
E o antigo paraíso só existe
Na pálida memória, como o cabaré.
Porto Alegre, 18 de maio de 2002.
Ubirajara Passos

criado por ubirajara.passos
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