| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | ||||||
| 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 |
| 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 |
| 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 |
| 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 |
| 30 |
Embora tenha publicado neste blog todos os "sermões na igreja de satanás" até agora escritos, deixei de fora a introdução do livro, que não só lhe dará um panorama como é, a moda do poema do primeiro post publicado, uma profissão de fé do meu pensamento. Aí vai, portanto, em comemoração ao centésimo post, publicado ontem, o texto. Divirtam-se.
Eis que, um belo dia, Aníbal ouviu o chamado do Diabo e este lhe disse: “Vai, meu filhinho, por aí, e prega aos teus irmãozinhos a verdadeira religião – a da liberdade. Pois eis que estão muito assoberbados por regras, obrigações e temores e quanto mais ouvem seus padres e pastores e bons revolucionários institucionalizados (ah, como é bom sonhar com a revolução na fofa cadeira de um gabinete na Câmara dos Deputados!), tanto mais se enchem de culpa (culpa até de viver) e se condenam a si próprios à danação eterna, de tal forma que o meu Inferno está inflacionado de condenados e já não há verba no orçamento para manter acesa a fogueira!
“Devolve-os à pura e santa verdade de que o sublime é a existência livre, malcriada e desobediente, mas cheia de prazer e sem o fardo de viver e trabalhar, de madrugada a madrugada, como bicho (ainda que bicho sofisticado), para gandaia dos patrões e dominadores, esquecendo de si mesmos.
“Que o sexo desvinculado da procriação e das pulsões econômicas é um dos mais refinados e profundos prazeres desta vida.
“Que a própria condição mortal e a diária necessidade de sobrevivência já são sofrimentos e “punições” suficientes para lhes azedar bem a vida e que, portanto, deixem de bater no próprio peito e recitar o mea culpa (antes usem a mão pra bater uma punheta) e reservem aos seus hipócritas gurus, “líderes sábios” e pastores as penas do inferno, que as merecem pelo supremo pecado de injetar boca a baixo da humanidade a ladainha moralista e falsa que exige aos homens mil deveres em troca de pó, enquanto engordam os seus fofos bolsos e satisfazem sua vaidade de dominação!”
E Aníbal, transfigurado nas infernais chamas do Capeta, viu a luz e, por ser mais fácil e atender à sua preguiça, ao invés de sair de porta em porta a pregar e virar mundo, alugou um belo salão na periferia de uma metrópole do extremo sul do Brasil e pôs-se a pregar! Eis aqui a coleção dos seus sermões mais memoráveis.
Ubirajara Passos

criado por ubirajara.passos
22:34:03 Transcrevo abaixo a primeira parte de mais um dos "Sermões na Igreja de Satanás" (complentando com ele o total de sermões até o momento redigidos):
DAS VIRTUDES DA VADIAGEM
Não fôssemos animais infelicitados por um cérebro capaz de ir muito além do conhecimento imediato e imergir nos mais refinados recantos do univero da possibilidade e da emoção, e o trabalho poderia justificar-se como uma "razão de viver" e não a tortura inevitável que a necessidade física da sobrevivência, e da existência em um mundo feito de matéria, nos impõe. Muito ao contrário da pregação hipócrita de seus maiores defensores (bons burgueses seríssimos, de veias túrgidas de gordura, que construíram suas vidas no árduo e austero "trabalho" de amealhar fortuna à custa do trabalho alheio, ou recalcados líderes de "esquerda", contaminados pelo moralismo das sacristias), o embruteceder e massacrante labor nada possui de virtuoso, dignificante ou realizador! É antes um entrave a seres forjados, pela condição que lhes deu a evolução biológica, para o prazer e a aventura e não para a insípida e tediosa rotina de autômatos de carne e osso.
Seja, porém, pela necessidade de fugir ao suplício da faina diária e recuperar, ainda que abstardado, o paraíso do prazer (só alcançável no mais genuíno e absoluto ócio), seja pelo deleite especial que lhes proporciona o exercício do sadismo, os mais aguerridos e astutos dentre nós arrojaram-nos, historicamente, a obrigação de não apenas mourejar contínua e dolorosamente por nossa própria vida, mas também pela deles, sob cuja prioridade passamos a existir.
Não bastasse, portanto, o séquito natural de incômodos decorrentes da atividade necessária, rotineira e, intelectual e emocionalmente, limitada e aborrecida (como o afã doméstico) que nos inflige a nossa própria condição mortal individual, o advento da dominação (na forma das correntes físicas da escravidão ou institucionais e ideológicas da servidão e do emprego) transformou o que era um purgatório inarredável no mais completo e exasperante inferno! Se o trabalho "livre" guarda ainda alguma possibilidade de prazer, conforme a solicitação intelectual e estética nele envolvida (um artesão de marcenaria ou oleiro poderá apaixonar-se pelas "obras de arte" que produz no seu torno), o exercido sob as patas do patrão elimina qualquer possibilidade de manifestação autêntica da personalidade e acaba por condicionar todo o restante de nossas vidas.
Continua no próximo post...

criado por ubirajara.passos
01:57:48Continuação do sermão (´post acima):
O mais dramático, no entanto, não é o embrutecimento inevitável presente na lida, mas o fato de que, não trabalhando, colocamos em risco a nossa própria sobrevivência física. Deitar-se permanentemente à rede, meditando sob os insondáveis desígnios e mistérios da alma humana e da vida, e apreciar o instigante desfile da luz, da brisa e do luar, pode se constituir num convite certo à morte... ao menos que pertençamos à classe daqueles que obrigam os demais a não um único momento para contemplar o encanto de quadris bamboleantges, absortos na severa "diversão" de se esbodegar pelo patrão.
É este caráter categoricamente indispensável do trabalho qaue cria a possibilidade (mesmo numa sociedade em que a tecnologia avançadíssima poderia nos aproximar a todos do Éden - reduzindo ao mínimo necessário o tempo e a natureza penosa da ocupação) de submetermo-nos à incessante rotina de humihação, cansaço, imbelecilidadee obediência cega e reverente diante dos mais vaidosos e burros feitores que executam a vontade dos nossos "senhores".
A divisão do trabalho, o irracionalismo "lógico" da produção em série, ou a "necessidade" de atendimento eficaz e célere das demandas de serviços, nos transformam em zumbis, mais inconscientes do que as próprias máquinas operadas ou as rotinas formais dos procedimentos de escritório. Mas, muito além da inerente despersonalização pofr eles imposta, é a disciplina, fria e regulamentadora, da"ética laboral" a causa mais profunda, e onipresente nos vários ramos da atividade humana considerada "útil", das tormentas na luta pelo pão que o diabo (ou Deus) amassou de cada dia.
Não há maior infelicidade para um ser pensante e sensível do que, além de ter negado o prazer e o mínimo de condições materiais de existência em nome do luxo e do capricho alheio, ser submetido, durante a maior parte de sua vida desperta, a atuar não segundo as inspirações e motivações da inteligência e da emoção próprias, mas ter de jungir-se à formalidade e à vigilâncias contínuas de regras o mais da vezes irracionais e profundamente impregnadas do maior carrancismo e moralismo autoritário, digno dos mais inverterados mestres-escolas, de palmatória em punho, dos tempos dos nossos avós.
Se a exigência de "bom comportamento" e austera seriedade está presente, ainda que oculta sob a tênue capa da tolerância "informal" da modernidade, em cada instância de nossas vidas (do trânsito ao leito, passando pela escola e até pelo bordel) é no trabalho que ela, pela necessidade de submissão total que a dominação pressupõe, atinge o seu ápice
O desconforto, o sofrimento físico e psicológico do homem transmutado em coisa, aferrado a ações automáticas, repetitivas (e, portanto, cansativas), fasditiosas e obnubilantes não são apenas uma conseqüência lógica das modernas formas e "imperativos" da produção, num mundo de complexidade tecnológica crescente, mas um componente ideológico necessário ao exercício do domínio. Não é possível obrigar um indivíduo a todo este sacrifício e degradação voluntários, senão imbuindo-lhe até a menor molécula do senso absurdo de auto-imolação, do dever de "ser útil" ou, pelo menos, do temor (reforçado pelo comportamento delatório e oportunista dos demais membros do rebanho) da autoridade e suas imposições de estrita e sisusda dedicação ao serviço (um cigarro ou uma gargalhada são um tempo "subtraído" imoralmente ao amo que alugou-lhe os braços ou a mente, assim como a menor satisfação pode trazer à tona o desejo de jogo, prazer e liberdade sepultados).
Continua (e se conclui) no post abaixo.

criado por ubirajara.passos
01:47:16continuação do post anterior:
A exploração e domínio carecem da sujeição do animal humano a cangas, encilhas e bretes tão violentadores, que esta se faz, forçosamente, presente não apenas no espaço exclusivo do lavor, sob p0ena de se esfacelar. Assim, a alimentação, o sexo, o lazer (a vadiagem institucionalizada), os mínimos momentos, peripécias e detalhes que formam o estofo dos nosso dias passam, imperceptivelmente, a ter "horários", conteúdo, e mesmo formas de exercício, regrados e definidos não segundo as necessidades biológicas naturais ou as inspirações emocionais e decisões do nosso arbítrio individual, mas conforme as contingências do lucro que propicia a vida faustosa e sem sobressaltos de nossos amos.
Outro não é o cenário no qual o que sobra das horas dedicadas aos afazeres mal se presta às rotineiras atividades necessárias à manutenção da existência do rebanho de trabalhadores. Se examinarmos atentamente o tempo "livre" de que dispomos, constataremos que (quando o parco salário nos permite e a fadiga da jornada não nos converte em abúlicos adoradores dos deuses eletrônicos - rádio e televisão) nele nos resta uma atabalhoada luta contra o tempo limitado, destinado às compras, ao estudo, ao cumprimento protocolar e frio dos papéis familiares e sociais e, quando muito, ao divertimento insulso dos fins-de-semana periódicos. Uma existência mecanizada, em que se destina um tempo e um local obrigatórios para cada atividade, ainda que em flagrante contradição com as condições emocionais ou físicas do momento. Em que os sentimen tos e interesses mais caros e profundos não podem, nem devem, segundo a ética vigente, manifestar-se a qualquer instante, mas subordinam-se e são sac rificados aos sagrados reclamos do trabaho. A própria folga da trabalhadora grávida, sob o título de licença-maternidade, caracteriza-se como uma exceção que a produção econômica, assumindo a primazia, concede à natureza para continuar a perpetuar a vida!
Não é, entretanto, por não haver fuga possível (sem prejuízo da vida ou de mínimo de dignidade humana) ao trabalho, que devemos nos sujeitar ao controle inelutável e doloroso da atividade assalariada, nem à interdição constante, em seu nome, dos deleites proporcionáveis por nossos corpos, emoções e intelecto. Não é, em suma, por ser um mal necessário, que devemos organizar, e permitir que organizem, nossas vidas no interesse do trabalho, ao invés de trabalhar, o mínimo necessário e com a máxima liberdade e satisifação própria de seres dotados de razão e sensibilidade, para vivermos de forma válida e agradável.
Ubirajara Passos

criado por ubirajara.passos
01:00:15Mais um porre, mais um texto antigo que, talvez, seja tão atual quanto o anterior. Peço a devida paciência aos leitores. Por enquanto me aturem com mais um "Sermão na Igreja de Satanás":
DAS VANTAGENS DA IGNORÂNCIA
Num mundo em que a maioria dos indivíduos vive imersa na mórbida necessidade de se esforçar o máximo possível para ser um bom membro do rebanho e agradar seu dono, a consciência do que realmente fazemos de nossas vidas, a capacidade de questionamento e o amor da liberdade são nefastos à tranqüilidade e bem-estar emocional da desventurada criatura que for por eles tocada.
O imbecil vítima de tal desgraça padecerá, enquanto a menor fibra de seu ser agitar-se viva, o drama da solidão e da incompreensão de seus companheiros ante a sua mania de “complicar a vida” e querer subverter a “ordem natural das coisas” em nome de verdades que – admita-se – podem atingir o cerne dos incômodos de suas vidas bovinas, mas não trazem “vantagem nenhuma a ninguém”!
O gado humano, devidamente amestrado, desde a mais tenra idade, ao servilismo, poderá revoltar-se contra a miséria material em que vive, mas tão arraigado está em sua alma o temor do caos e o culto da disciplina , que sua pobreza lhe parecerá, no máximo, o resultado de sua condição natural ou, quando muito, da sua falência (ou incapacidade) pessoal. Para o comum dos indivíduos, se o proprietário da fábrica, do campo, do escritório detém o poder – porque, afinal, é proprietário – de dispor as coisas segundo o interesse “próprio” (mesmo que disso resulte a frustração até das mais básicas necessidades biológicas de seus empregados – ou antes “utilizados” – ferramentas sem nome e sem vontade) é porque seus méritos – que ninguém sabe quais são ou donde vieram – o permitem. De tal forma que, assim supõe, não se deve rebelar contra o domínio destes “virtuosos senhores” (ainda que a sua virtude seja a vigarice), pois, como tais, são eles os fiadores da “ordem”: sem a imponente autoridade destes grandes pais o mundo se obumbraria na desorganização mortal e fatídica.
Quem quer lhes atire à face a atroz exploração de que são vítimas e, o que é pior, o fato de serem os maiores responsáveis por ela, amargará a pior repressão histérica por ferir seus brios de otários orgulhosos e tentar mudar um mundo que, segundo pensam, está estruturado desde sempre para evitar que a “libertinagem assassina” coloque em risco a própria vida de cada um. Os donos podem ficar com o grosso da riqueza produzida, podem ser petulantes e sádicos, mas a sua suserania é, na visão do ignorante, necessária: sem a disciplina, a moral, e a representação viva que delas se faz no padre (ou pai...), no pastor, no político, no juiz... o mundo submergiria num mar de sangue e de luxúria! “E se cada um pensar por si, der vazão às suas inclinações sem freios, fatalmente ruirá na violência selvagem toda a humanidade”.
Enfim, o quadro de dominação e coisificação em que vivemos há milênios pode ser cruel, pode ser o responsável pelos nossos mais íntimos desgostos, mas parecerá, ainda assim, para o ignorante, o melhor dos mundos possíveis, uma vez que tem inculcada em si a imagem de que a liberdade, pela falta de direção absoluta que supõe, é obrigatoriamente a condição da qual derivaria a fantasiosa destruição de tudo. Para ele, o poder, com todo seu cortejo irracional de imposições infelicitantes, é, ainda assim, a garantia de um bem-estar e uma segurança precários, mas reconfortantes.
Tamanho é o grau de tortura, de envilecimento a que é submetido, desde os primeiros instantes fora do útero materno, pelo mundo da imposição (aceita sem dúvidas: pode ficar perplexo eventualmente, mas, se olhar para seus parceiros de desgraça, tudo o que verá será, como ele, ovelhas amedrontadas) que, doentiamente, tudo o que lhe propiciar um mínimo de imutabilidade lhe parecerá bom. Diante do que se lhe afigura como as excêntricas exigências dos amos de seus avós, um explorador que lhe permita uma vida miserável, mas estável, será um benfeitor.
Assim, o confronto com a incerteza, decorrente da descoberta de que vive em anestesia, o tornará infeliz! O indivíduo submetido às piores sevícias físicas se julgará feliz se estiver devidamente dopado. Mas se lhe retire a morfina benfazeja e se retorcerá de dor. Tal é a natureza da grandissíssima maioria de nós: eliminada a anestesia moral, poderia saltar, fulminante, sobre o seu algoz, mas, à menor dor decorrente de sua privação, chora, berra e suplica por mais morfina!
Ubirajara Passos.

criado por ubirajara.passos
00:27:40