Bira e as Safadezas...

Putarias, meditações, reinas e narrativas de um anarquista heterodoxo

Bira e as Safadezas...

Putarias, meditações, reinas e narrativas de um anarquista heterodoxo
<  Junho 2008  >
S T Q Q S S D
            1
2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15
16 17 18 19 20 21 22
23 24 25 26 27 28 29
30
Blogs Favoritos
Receba os posts
Terra Blog

Categoria: Narrativas

05.04.07

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA 7

categorias: Narrativas

     No último dia na Argentina (terça-feira de carnaval), saímos de Posadas já passado das 10 h (o originalíssimo relógio "Orenete" do Valdir marcava 9 h 30 min...) e, deixando para fazer as compras em Oberá, nos deparamos, a cada passo, com a inflexível instituição da "siesta" (que começa ao meio-dia em ponto e se estende, durante a semana - pois no domingo é píor) até as 4 horas da tarde.

     Tanto no shoping de roupas Oscar, quanto no Supermercado "El Condor" (que fecha à 1 hora da tarde) fomos praticamente corridos por um atendimento impaciente e carrancudo, o que não me impediu de comprar uma camisa e uma bermuda argentina na loja e alguns livros do Nietzsche e uma coletânea de autores anarquistas em castelhano.

     Mas o cúmulo da intolerância, da falta de acolhimento e da cretinice se deu no restaurante do Cassino. Estávamos nos servindo (cerca de 1 h 45 min da tarde, pois a "siesta" do Cassino fecha às 14 h), quando nos interpelou um garçom para nos avisar que o estabelecimento fecharia logo e que tínhamos quinze minutos para comer! Não, não me entendem mal os leitores: não é que o bifê fosse recolhido em quinze minutos e tívessemos tempo de, servidos, almoçar sem preocupações. A afirmação significava aque, chegadas as 14 h, tendo ou não terminado de almoçar, teríamos de sair correndo.

     Invocado com o autoritarismo burocrático do "estabelcimento", quando fui ao banheiro, fiz questão de mijar na pia. E, tendo contado o meu ato ao Rogério, este, por sua vez, mijou no cesto de papéis higiênicos. Estava vingada a honra brasileira e rio-grandense do desaforo castelhano. Uma hora depois retornávamos ao Brasil (Santa Rosa, Rio Grande do Sul) e, então, nos parecia que não havia passado apenas três, mas várias semanas fora de casa.

 

Ubirajara Passos

31.03.07

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA 6

categorias: Narrativas
     Na terça-feira de carnaval, após beber todas durante a madrugada, o alemão Valdir ainda pretendia se despedir de Posadas a caráter: enchendo a cara na calçada do restaurante mais fino da cidade. E assim, oito horas da manhã, marchamos, heróicos bêbados desafiadores do moralismo local (onde já se viu tomar cerveja logo de manhã cedo?), rumo ao café com nome francês.
     Sentados com toda pompa na rua, o garçom castelhano nos recebe com a contida cordialidade local, que logo se esvai em estranhamento e censura quando pedimos uma Quilmes. O sujeito olha para o relógio e nos responde que só servem cerveja após nove horas da manhã! Putos da vida, fomos procurar um posto de gasolina para adquirir umas latas do produto redentor e demos de cara com uma lona preta sobre a porta do freezer onde ficava a cerveja.
      Ainda assim, julgando se tratar apenas uma questão de costume "austero" da castelhanada (chegamos a supor que o garçom se recusara a nos servir para não deixar o estabelecimento "mal-falado" - os pequenos-burgueses de Posadas poderiam se escandalizar ao ver dois bêbados "imorais" tomando porre na calçada de um restaurante "familiar de classe" logo cedo), não tivemos dúvida e íamos retirando as latinhas, quando o dono da loja de conveniência nos intercepta, porque "no se puede vender bebida alcoólica en la via pública antes de las nueve: es ley de la municipalidad"!
     Voltamos para o City Hotel revoltados. Que cretinice é esta do Estado de controlar a vida das criaturas humanas a ponto de regulamentar os horários em que podem embriagar-se e criminalizar quem bebe de manhã cedo (pelo que nos disseram, poderíamos ser presos se fôssemos pegos na rua com uma lata de cerveja antes das 9 h). Qual a diferença entre encher os cornos, e eventualmente fazer uma arruaça (esta deve ser a preocupação do prefeito) às oito e meia ou às dez horas da manhã. E se o "imoral gambá arruaceiro" quiser comprar a sua vodka antes do horário interditado e tomá-la, saindo para aprontar todas na rua entre meia-noite e nove horas, qual o efeito que tem a "educativa lei"?
     Narramos aos atendentes da portaria do Hotel a nossa desventura e, quando fomos tomar um café  na copa (que não serve nem almoço, mas apenas pão e café com leite), já passado de las nueve evidentemente, qual não foi a nossa surpresa: a administração do Hotel, pesarosa com a infelicidade dos turistas brasileiros (e temerosa de perder eventuais clientes futuros) havia mandado comprar um litro de Quilmes especialmente para nós. E na sacada do City Hotel, em plena praça principal da capital da Província de Misiones, a irreverência escandalizou e rompeu os estritos canônes do autoritarismo tacanho do lugar: dois gaúchos anarquistas e safados sorviam, com o ar da maior pompa possível, uma cerveja em local onde nem Coca-Cola se bebe, para espanto dos seríssimos clientes que tomavam seu café!

Ubirajara Passos
 

23.03.07

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA 5

categorias: Narrativas

     De volta a Posadas, na tarde de segunda-feira, tive, na calçada do café mais "chique" da cidade um destes raros momentos em que o espaço se abre à nossa frente e nos vemos lançados numa dimensão fora do tempo. Tomando uma Quilmes, mais uma vez, com o alemão Valdir, me dedicava a um dos meus esportes preferidos (espreitar mulher boa na rua), quando dei com aquela moreninha, de cabelos negros e nariz afilado, simplesmente linda e misteriosa como uma esfinge (possivelmente mestiça de índios e espanhóis), num vestido bege que lhe desenhava perfeitamente o corpo esguio e saboroso.

     A deusa descida na terra ia caminhando junto à vitrine do café, a minha direita, e para sorte dos meus olhos, acabou por sentar-se na mesa onde estava a "espiã" no outro dia. Encarei-a e, quando menos esperava, ela, se levantando, me olha pergunta, se dirigindo para uma mesa à minha frente: "eestá ocupada". Quase desmaiei e lhe respondi laconicamente no meu precário castelhano um "no", para ouvir daquela voz paradisíaca um "muchas gracias" e lhe responder "no sea por eso".

     Este foi o formal e seco diálogo que mantivemos, mas o simples fato daquela criatura apaixonante falar comigo me deixou doido. A morena sentou-se e puxou do que pensei ser uma revista (mais tarde, quando já havia ido embora, fui até a mesa e verifiquei que eram prospectos de uma loja), e imaginei que iria se repetir a cena da loira do dia anterior. Mas logo chegou uma amiga e sentou-se à sua mesa.

     É evidente que não despreguei os olhos da gatinha e tive a ocasião de vê-la mencionar-me à amiga, que voltou-se para trás, me espiando, umas duas vezes. Lá pelas tantas a coisinha linda foi ao interior do restaurante e, voltando com uma caneta, começou a escrever. O idiota aqui imaginou que iria receber um torpedo, mas conversaram mais um pouco e se mandaram, as duas, depois de uns vinte minutos.

     A gata era tão impressionante, tinha um rosto tão decidido e enigmático, além do corpo voluptuoso, que cheguei a viajar e imaginar um romance ambientando em Posadas, a um passo do Paraguai, no qual o personagem principal, um jornalista desempregado, encontra a guria e acabava se envolvendo em mil peripécias, com direito a uma trama de espionagem e guerrilha. Quem sabe um dia eu o escreva. Mas o fato é que, diante daquela caboclinha, a capital de Misiones transfigurou-se  e eu de repente vi uma cidade aprazível, numa encruzilhada internacional do mundo, ao mesmo tempo provinciana e populosa, na qual bem gostaria de morar. Viva o romantismo sem concerto.

 

Ubirajara Passos

22.03.07

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA 4

categorias: Narrativas

     Na passagem da ponte entre Posadas (Argentina) e Encarnación (Paraguai), a burocracia revela a completa falência do Mercosul  e nos dá a noção do caráter autoritário e irracional do Estado. Têm-se de aguentar filas homéricas, de uma hora e meia, para ir de uma margem à outra e, ainda que não se leve mercadoria de um para outro país, se submeter ao ritual de apresentação de documentos e interrogatório da polícia de ambos os lados.

     Para entrar no Paraguai tivemos de entregar nossos vistos de entrada e identidades no posto argentino e depois obtermos novos vistos no posto paraguaio (na passagem Brasil argentina tudo é feito no posto de Alba Posse). Aí até que os burocratas foram ágeis. Mas na volta há dois postos paraguaios de identificação sucessivos, a fora o posto de legalização de mercadorias compradas (pelo qual não passamos, pois tudo que possuíamos era coisa de pequeno volume e, ou colocamos no porta-luvas, ou viemos usando) e a inspeção prévia do porta-mala. a impressão é de que nos encontramos em algum campo de concentração nazista.

     No último posto paraguaio da volta um cartaz oferece uma recompensa vultosa em guaranis para quem der informações de um bandido internacional, provavelmente traficante ou contrabandista, que atende pelo nome de "Gardelito". Aí, vendo um cinqüentão qualquer que se achava na fila, nos divertimos com a idéia de "denunciá-lo" às "otoridades" para ganhar uma grana.

     Encarnación nos pareceu bem mais provinciana que Posadas, ainda que seu povo possua um típico humor descontraído e sacana de brasileiros. O Paraguai  é uma espécie de sub-colônia cultural do Brasil, onde a atitude e a mentalidade mais povão se manifesta radicalizada. Na "zona baja" (o mercado informal, situado na várzea do Rio Paraná, de um calor úmido insuportável) os camelôs com mesas na calçada (nem tendas ou barracas existem, lá o governo ainda não resolveu "civilizar" o comércio da muamba, como no Brasil) são os mais sofisticados. Pois a regra é o andarilho, que percorre a rua com suas quinquilharias, abordando veementemente cada estrangeiro, ou raro nacional desavisado que por ela circula.

     Foi com um destes que o companheiro Valdir acabou comprando um relógio de "primeira" pela bagatela de uns cinqüenta reais, com a minha influência, pois além de achar barato o produto, acreditei na lábia do paraguaio e lhê afiancei o qualidade e autenticidade do belo relógio "Oriento" que lhe era oferecido. Só no dia seguinte, quando íamos de Posadas a Oberá, voltando para o Brasil, e o alemão deu com um atraso de vinte minutos no relógio a pilha, em relação aos nossos relógios, é que fomos examinar a marca dele e descubrimos que era um produto autenticamente nacional. O tal "Oriento" (comprado junto com um fajuto "Ray Ban", que outro ambulante conseguiu passar ao alemão, na mesma ocasião) não passava de um "Orenete" original... do Paraguai!

     Ainda quando visitamos a "zona baja", tive a ocasião de divertir-me, e me esquivar de gastar meus pesos argentinos (há em Encarnación, não sei porque, uma certa preferência pelo dinheiro platino em relação ao Real), quando um índio gaiato, mais ou menos da mesma idade e compleição física do matuto de Posadas, na praça principal, horas antes, me oferecia aos gritos, e com um sorriso maroto, uma "faca para matar la sogra". Confesso, que se não tivesse me livrado do arremedo de semelhante parente, que possuí na época em que me enredei com o grande amor da minha vida, teria certamente pago até o dobro do preço para adquirir tão útil objeto.

     No almoço, ocorrido antes da visita ao mercado popular, foi que descobrimos, com o garçom, o significado de "panceta" (gordura da barrica do porco, ou, conforme os "grandes irmãos"  - the big brothers -  yankees, bacon) e do próprio do estabelecimento: Carumbé - que, conforme o simpático caboclo paraguaio, "es la tortuga". Vendo que o gaúcho idiota de ascendência açoriana, e de velhos portugueses lagunistas, aqui não entendia, apesar de lhe perguntar em castelhano, me traduziu de imediato: "tartaruga".

     Mas a grande sensação da expedição ao Paraguai foi o guaraná local, de marca "Simba". Seu sabor simplesmente passa a milhões de quilômetros adiante dos nossos guaranás aguados e açucarados. É o mesmo dos extratos medicinais de guaraná em pó, com o sabor acentuado da fruta. E a multinacional que o produz no Paraguai, e no Brasil vende água açucarada, é a mesma Coca-Cola yankee de cada dia. Apaixonados pelo sabor, quase trouxemos alguns litrões de contrabando.

 

Ubirajara Passos

20.03.07

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA 3

categorias: Narrativas

     Na manhã de segunda-feira de carnaval, finalmente tivemos contato com a alma de Posadas. Percorrendo a praça principal, lotada de barracas de artesanato e de guaranis desempregados a perambular, vendendo alguma bugigana ou simplesmente vagando, alguns dormindo bêbados ao pé dos monumentos, tivemos a ocasião de constatar o conflito subjacente de um povo cujo coração da capital ostenta homenagens em pedra ao opressor portenho que subjugou, na Guerra do Paraguai, uma região pertencente ao Paraguai e, anteriormente, fora parte da vasta república (informal)  guarani estabelecida pelos jesuítas.

     A seriedade provinciana patriarcal do branco descendente de espanhóis pesa, naquelas latitudes, como o próprio calor sufocante, sobre o mudo sofrimento dos filhos da terra. E, em nenhum lugar  vi, até hoje, atitude tão refratária à curiosidade "religiosa" de dois ateus safados. Valdir, entusiasmado com o templo católico secular que se erguia no fundo da praça, se dirigiu a uma ilustre "señora" da cidade, que dele saia, perguntando-lhe: "que iglesia es esta?" E a "madame", que mais parecia a mulher de um "don" que uma beata, na faixa dos quarenta anos, nos responde secamente: "la iglesia catedral!" Nada de informação sobre o santo de invocação nela cultuado ou sobre a história da catedral.  A mensagem sub-reptícia era óbvia: o que querem estes brasileiros curiosos e irreverentes? Esta aqui é a casa sede da nossa rotina ossificada e necessária e está acabado. Aqui é a casa em que o supremo poderoso abençoa os poderosos cá da terra em nome da ordem imutável e nada de firulas, senhores turistas "devassos".

     Mas apenas a algumas dezenas de metros à direita, junto à rua lateral onde se ergue o palácio do governo provincial (velho palacete de um único andar, construído com pátio interno à moda das antigas sedes de fazendas da América espanhola, e com uma arquitetatura mais de quartel que de sede de governo) tivemos o absoluto contraste com a castelhana seca.

     Perguntamos à algumas índias que casa era aquela e, como ninguém sabia nos responder, questionei um velho colono, destes de chapéu de palha e calça remendada (verdadeira figura de caipira ou matuto na região nordeste do Rio Grande do Sul) se aquele era o palácio do governo. E o velho, com um sorriso maroto, atravessado por um palheiro típico, nos respondeu: "Es la casa del cabeza grande". Eu, encontrando naquela figura algo familiar a um roceiro brasileiro, resolvi fazer graça e lhe respondi: "dicen por la calle que él (o governador, o 'cabeça grande') también es cuerno!" E o velho, entre sarcástico e socrático, me devolveu: "Se es casado este es un regalo que hace parte".

 

Ubirajara Passos