Bira e as Safadezas...

Putarias, meditações, reinas e narrativas de um anarquista heterodoxo

Bira e as Safadezas...

Putarias, meditações, reinas e narrativas de um anarquista heterodoxo
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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2007

22.04.07

ALERTA AOS LEITORES

Estou migrando este blog para o provedor "Wordpress", que possui recursos de edição e estatísticas bem mais desenvolvidos que o Terra Blog. Assim, a partir de hoje, os fiéis leitores poderão encontrar todo o conteúdo deste blog, e os futuros posts, no endereço upassos.wordpress.com
Nele, além das categorias tradicionais deste blog, os companheiros poderão encontrar novas seções e uma apresentação muito mais ágil e estética.

Ubirajara Passos

20.04.07

O SONHO DO PEÃO

categorias: Poemas
E assim, perdido pelos campos,
Ele não sabia,
No meio da vida,
O que era a vida,
Nem o que seria.

Ainda levava
Na melena rala
A memória velha
Das brisas de outonos,
Ainda sonhava
Com mulheres-onças,
Tesudas panteras,
Gatas enroscadas
Ronronando doce.

E em sonhos
Ele se perdia
Pelas madrugadas,
Ínsone teatino, troteando no céu,
Procurando estrelas
Perdidas, sem rumo,
Brilhantes pedaços de beleza e gozo.

Ele se perdia
Na paixão da lua,
Misteriosa fêmea
Que o hipnotizava.

Ele se entregava
A estranhas auroras
Que rubras bucetas
Da cor de corais
Não igualariam
Nos gozos dos corpos
Ao orgasmo da mente,
Ao prazer do olhar!

Ele imaginava
Um mundo sem beiras,
Um tempo parado,
Uma gente sem peias,
E diziam-lhe "os sérios",
Os "bem-comportados":

Tu estás louco, homem,
Nunca houve esta coisa
De animais humanos
Soltos pelo mundo
Mandando em si mesmos.

A regra é diversa
E dela é preciso
Que obedeçamos
Todos os preceitos.

Há chefes e donos,
Barões, baronetes,
Há grão-sacerdotes,
Há os camaradas
Aconselhadores,
O velho partido
Da ciência revolucionária.

Conforme as formigas,
Viva, tchê, conforme.
Sejas, coletiva,
Ferramenta informe,
Que a ti não importam
Quem sejam teus chefes.

Tu foste parido,
Ser ínfimo e pobre,
Incapaz de ti,
Para nos servir.

Ontem fomos reis,
Senhores feudais,
Escravistas novos,
Fascistas vermelhos.

Nós fomos filósofos,
Cientistas políticos,
Fomos psicológos,
Até antropológos!

De ti entendemos
Tudo o que nos dais:
A reverência burra,
A crença sem crítica,
O desamparo ávido
De instintos filiais
E a ambição das bestas
De maior ração
E menos relhadas
No lombo fodido!
Hoje somos, próximos
Tua própria "consciência",
Que entra todos dias
Em tua mente vadia,
Na tela de vidro,
(A tal de TV)!

E o quëra sem rumo,
Um sepé de hoje em dia,
Índio e europeu,
Não sabia mais
O que responder
Às gralhas do mundo,
Nem o que escolher
Entre tantos senhores!

Tão perdido estava
Que na noite achou-se:
Depois da erva-mate
Veio-lhe a cachaça.
Sonhou como os índios,
Tornou-se um xamã.
Entrou nos delírios
De druidas e bruxos

E à mente lhe veio
Uma incerta resposta,
Tão incerto é tudo,
Mas que o satisfez:

Velho companheiro,
De eternas jornadas,
Tu és só mais um
Que sofre teu século.

Logo a terra bruta
Levará tua carne
E mais uma vez
Tu renascerás
Na pedra, na árvore,
Homem ou animal!

Breve é tua estada
No mundo consciente,
Breve é tua vida.
Como tu, não existe
Perpetuidade nos teus elementos!

O que hoje te forma,
Até os calos do pé,
Amanhã serão
Os olhos castanhos
Da fêmea mais linda
Ou a bosta gigante
De um elefante!

Vive a "tua" vida
E não deixes que os outros
Te imponham deveres,
Limites, recalques,
Sê tu, só tu mesmo,
Que é "única" a vez que vens ao universo!

Gravataí, 20 de abril de 2007

Ubirajara Passos

19.04.07

DESENCANTO

     Embora algumas idéias para postar no blog me passem raspando pelos cornos, a verdade é que não tenho o menor saco de parir algo novo. Assim, publico o poema abaixo que, além de exonerar da obrigação de escrever, é um espelho fiel do meu humor nas últimas semanas.

DESENCANTO

De que me vale o canto revolucionário,
O lírico encantamento
Das coisas e dos seres?

De que me vale o sentido íntimo e profundo
Da beleza e do mistério
De um campo solitário e desolado,
De verdes prados em tarde enuviada,
Da ventania que, gélida e arisca,
Na sua infinda jornada,
Cavalga os campos, tudo a arrastar?

De que me vale o enlevo do universo
Na solidão das noites
Estreladas ou de luar?

De que me vale conhecer da Humanidade
Profundas as mazelas em que imerge-se,
Nos turbilhões dos temporais da vida,
Perdida, sem farol, a navegar?

De que me valem os ímpetos
De rebeldia, buscando levantar
Do insólito sono crepuscular
As consciências desde muito adormecidas?

Se sou “uma voz que clama no deserto”?
Se não ouvem meus gritos, até fatigar?
Se a tempestade avassaladora da inconsciência,
Da falta da Razão, de Liberdade,
A tudo envolve e teima em arrastar?

Se a própria vida, em suas terríveis roscas,
Tudo esmaga e a mim mesmo
Envolve nas vagas frustradoras
De seu imenso mar?


Gravataí, 10 de junho de 1990

Ubirajara Passos

10.04.07

UMA REINA AMOROSA

categorias: Poemas, "Reinas"

     Na volta de São Paulo, onde estive em 25 março (no Encontro Nacional em defesa da aposentadoria e dos direitos sociais, sindicais e trabalhistas) pela caravana do Sindjus-RS e da Conlutas (mais de 6.000 trabalhadores lotando o ginásio do Ibirapuera e dispostos a resistir aos ataques do fascismo lulista), tive uma paralisia do nervo radial do braço direito, que só após passar por dois hospitais e uma competentíssima neurologista  (Mariana Dagnino Araujo) me convenci ser mera lesão local, decorrente de dormir pressionando o braço contra o banco do ônibus, na manguaça.

     Mas a tensão gerada pelo episódio (imagina acordar com a mão direita dormente, sem força e sem condições de motricidade fina nos dedos menores que o indicador?), aliada à depressão que ando curtindo, os dias passados em torno de exames médicos e uma quase-broxada que dei com a gata preferida (resultado de ressaca e outro ataque de nervos que narro outra hora), simplesmente me afastaram completamente deste blog, cujas visitas diárias despencaram ao fundo do abismo.

     Assim, para dar alguma distração àqueles leitores que ainda tenham algum interesse no que escrevo (que espero se tornar melhor à medida em que avance o tratamento anti-depressivo) e aos que andam desiludidos com suas buscas amorosas, publico o poema pessimista abaixo, que um dia há de deixar de ser realidade.

Apenas Vultos


Por quantas sombras sofri,
Por quantos olhos
Que prometiam fogos além do concebível;
Por quantas almas de fascínio imprevisível,
Por quanto gozo físico incomum
Ardi nas chamas da “paixão sem freio”?

Como sofri, apartado do amor,
Da encarnação do sublime,
Dessas mulheres arrebatadoras?

Quanto gastei em reais e madrugadas
Na busca do sagrado feminino
Pra descobrir que tudo é árida terra!



Gravataí, 29 de maio de 2005.

Ubirajara Passos

05.04.07

QUATRO DOIDOS PERDIDOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA 7

categorias: Narrativas

     No último dia na Argentina (terça-feira de carnaval), saímos de Posadas já passado das 10 h (o originalíssimo relógio "Orenete" do Valdir marcava 9 h 30 min...) e, deixando para fazer as compras em Oberá, nos deparamos, a cada passo, com a inflexível instituição da "siesta" (que começa ao meio-dia em ponto e se estende, durante a semana - pois no domingo é píor) até as 4 horas da tarde.

     Tanto no shoping de roupas Oscar, quanto no Supermercado "El Condor" (que fecha à 1 hora da tarde) fomos praticamente corridos por um atendimento impaciente e carrancudo, o que não me impediu de comprar uma camisa e uma bermuda argentina na loja e alguns livros do Nietzsche e uma coletânea de autores anarquistas em castelhano.

     Mas o cúmulo da intolerância, da falta de acolhimento e da cretinice se deu no restaurante do Cassino. Estávamos nos servindo (cerca de 1 h 45 min da tarde, pois a "siesta" do Cassino fecha às 14 h), quando nos interpelou um garçom para nos avisar que o estabelecimento fecharia logo e que tínhamos quinze minutos para comer! Não, não me entendem mal os leitores: não é que o bifê fosse recolhido em quinze minutos e tívessemos tempo de, servidos, almoçar sem preocupações. A afirmação significava aque, chegadas as 14 h, tendo ou não terminado de almoçar, teríamos de sair correndo.

     Invocado com o autoritarismo burocrático do "estabelcimento", quando fui ao banheiro, fiz questão de mijar na pia. E, tendo contado o meu ato ao Rogério, este, por sua vez, mijou no cesto de papéis higiênicos. Estava vingada a honra brasileira e rio-grandense do desaforo castelhano. Uma hora depois retornávamos ao Brasil (Santa Rosa, Rio Grande do Sul) e, então, nos parecia que não havia passado apenas três, mas várias semanas fora de casa.

 

Ubirajara Passos