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criado por ubirajara.passos
14:29:44De volta a Posadas, na tarde de segunda-feira, tive, na calçada do café mais "chique" da cidade um destes raros momentos em que o espaço se abre à nossa frente e nos vemos lançados numa dimensão fora do tempo. Tomando uma Quilmes, mais uma vez, com o alemão Valdir, me dedicava a um dos meus esportes preferidos (espreitar mulher boa na rua), quando dei com aquela moreninha, de cabelos negros e nariz afilado, simplesmente linda e misteriosa como uma esfinge (possivelmente mestiça de índios e espanhóis), num vestido bege que lhe desenhava perfeitamente o corpo esguio e saboroso.
A deusa descida na terra ia caminhando junto à vitrine do café, a minha direita, e para sorte dos meus olhos, acabou por sentar-se na mesa onde estava a "espiã" no outro dia. Encarei-a e, quando menos esperava, ela, se levantando, me olha pergunta, se dirigindo para uma mesa à minha frente: "eestá ocupada". Quase desmaiei e lhe respondi laconicamente no meu precário castelhano um "no", para ouvir daquela voz paradisíaca um "muchas gracias" e lhe responder "no sea por eso".
Este foi o formal e seco diálogo que mantivemos, mas o simples fato daquela criatura apaixonante falar comigo me deixou doido. A morena sentou-se e puxou do que pensei ser uma revista (mais tarde, quando já havia ido embora, fui até a mesa e verifiquei que eram prospectos de uma loja), e imaginei que iria se repetir a cena da loira do dia anterior. Mas logo chegou uma amiga e sentou-se à sua mesa.
É evidente que não despreguei os olhos da gatinha e tive a ocasião de vê-la mencionar-me à amiga, que voltou-se para trás, me espiando, umas duas vezes. Lá pelas tantas a coisinha linda foi ao interior do restaurante e, voltando com uma caneta, começou a escrever. O idiota aqui imaginou que iria receber um torpedo, mas conversaram mais um pouco e se mandaram, as duas, depois de uns vinte minutos.
A gata era tão impressionante, tinha um rosto tão decidido e enigmático, além do corpo voluptuoso, que cheguei a viajar e imaginar um romance ambientando em Posadas, a um passo do Paraguai, no qual o personagem principal, um jornalista desempregado, encontra a guria e acabava se envolvendo em mil peripécias, com direito a uma trama de espionagem e guerrilha. Quem sabe um dia eu o escreva. Mas o fato é que, diante daquela caboclinha, a capital de Misiones transfigurou-se e eu de repente vi uma cidade aprazível, numa encruzilhada internacional do mundo, ao mesmo tempo provinciana e populosa, na qual bem gostaria de morar. Viva o romantismo sem concerto.
Ubirajara Passos

criado por ubirajara.passos
02:08:55Na passagem da ponte entre Posadas (Argentina) e Encarnación (Paraguai), a burocracia revela a completa falência do Mercosul e nos dá a noção do caráter autoritário e irracional do Estado. Têm-se de aguentar filas homéricas, de uma hora e meia, para ir de uma margem à outra e, ainda que não se leve mercadoria de um para outro país, se submeter ao ritual de apresentação de documentos e interrogatório da polícia de ambos os lados.
Para entrar no Paraguai tivemos de entregar nossos vistos de entrada e identidades no posto argentino e depois obtermos novos vistos no posto paraguaio (na passagem Brasil argentina tudo é feito no posto de Alba Posse). Aí até que os burocratas foram ágeis. Mas na volta há dois postos paraguaios de identificação sucessivos, a fora o posto de legalização de mercadorias compradas (pelo qual não passamos, pois tudo que possuíamos era coisa de pequeno volume e, ou colocamos no porta-luvas, ou viemos usando) e a inspeção prévia do porta-mala. a impressão é de que nos encontramos em algum campo de concentração nazista.
No último posto paraguaio da volta um cartaz oferece uma recompensa vultosa em guaranis para quem der informações de um bandido internacional, provavelmente traficante ou contrabandista, que atende pelo nome de "Gardelito". Aí, vendo um cinqüentão qualquer que se achava na fila, nos divertimos com a idéia de "denunciá-lo" às "otoridades" para ganhar uma grana.
Encarnación nos pareceu bem mais provinciana que Posadas, ainda que seu povo possua um típico humor descontraído e sacana de brasileiros. O Paraguai é uma espécie de sub-colônia cultural do Brasil, onde a atitude e a mentalidade mais povão se manifesta radicalizada. Na "zona baja" (o mercado informal, situado na várzea do Rio Paraná, de um calor úmido insuportável) os camelôs com mesas na calçada (nem tendas ou barracas existem, lá o governo ainda não resolveu "civilizar" o comércio da muamba, como no Brasil) são os mais sofisticados. Pois a regra é o andarilho, que percorre a rua com suas quinquilharias, abordando veementemente cada estrangeiro, ou raro nacional desavisado que por ela circula.
Foi com um destes que o companheiro Valdir acabou comprando um relógio de "primeira" pela bagatela de uns cinqüenta reais, com a minha influência, pois além de achar barato o produto, acreditei na lábia do paraguaio e lhê afiancei o qualidade e autenticidade do belo relógio "Oriento" que lhe era oferecido. Só no dia seguinte, quando íamos de Posadas a Oberá, voltando para o Brasil, e o alemão deu com um atraso de vinte minutos no relógio a pilha, em relação aos nossos relógios, é que fomos examinar a marca dele e descubrimos que era um produto autenticamente nacional. O tal "Oriento" (comprado junto com um fajuto "Ray Ban", que outro ambulante conseguiu passar ao alemão, na mesma ocasião) não passava de um "Orenete" original... do Paraguai!
Ainda quando visitamos a "zona baja", tive a ocasião de divertir-me, e me esquivar de gastar meus pesos argentinos (há em Encarnación, não sei porque, uma certa preferência pelo dinheiro platino em relação ao Real), quando um índio gaiato, mais ou menos da mesma idade e compleição física do matuto de Posadas, na praça principal, horas antes, me oferecia aos gritos, e com um sorriso maroto, uma "faca para matar la sogra". Confesso, que se não tivesse me livrado do arremedo de semelhante parente, que possuí na época em que me enredei com o grande amor da minha vida, teria certamente pago até o dobro do preço para adquirir tão útil objeto.
No almoço, ocorrido antes da visita ao mercado popular, foi que descobrimos, com o garçom, o significado de "panceta" (gordura da barrica do porco, ou, conforme os "grandes irmãos" - the big brothers - yankees, bacon) e do próprio do estabelecimento: Carumbé - que, conforme o simpático caboclo paraguaio, "es la tortuga". Vendo que o gaúcho idiota de ascendência açoriana, e de velhos portugueses lagunistas, aqui não entendia, apesar de lhe perguntar em castelhano, me traduziu de imediato: "tartaruga".
Mas a grande sensação da expedição ao Paraguai foi o guaraná local, de marca "Simba". Seu sabor simplesmente passa a milhões de quilômetros adiante dos nossos guaranás aguados e açucarados. É o mesmo dos extratos medicinais de guaraná em pó, com o sabor acentuado da fruta. E a multinacional que o produz no Paraguai, e no Brasil vende água açucarada, é a mesma Coca-Cola yankee de cada dia. Apaixonados pelo sabor, quase trouxemos alguns litrões de contrabando.
Ubirajara Passos

criado por ubirajara.passos
00:39:07Na manhã de segunda-feira de carnaval, finalmente tivemos contato com a alma de Posadas. Percorrendo a praça principal, lotada de barracas de artesanato e de guaranis desempregados a perambular, vendendo alguma bugigana ou simplesmente vagando, alguns dormindo bêbados ao pé dos monumentos, tivemos a ocasião de constatar o conflito subjacente de um povo cujo coração da capital ostenta homenagens em pedra ao opressor portenho que subjugou, na Guerra do Paraguai, uma região pertencente ao Paraguai e, anteriormente, fora parte da vasta república (informal) guarani estabelecida pelos jesuítas.
A seriedade provinciana patriarcal do branco descendente de espanhóis pesa, naquelas latitudes, como o próprio calor sufocante, sobre o mudo sofrimento dos filhos da terra. E, em nenhum lugar vi, até hoje, atitude tão refratária à curiosidade "religiosa" de dois ateus safados. Valdir, entusiasmado com o templo católico secular que se erguia no fundo da praça, se dirigiu a uma ilustre "señora" da cidade, que dele saia, perguntando-lhe: "que iglesia es esta?" E a "madame", que mais parecia a mulher de um "don" que uma beata, na faixa dos quarenta anos, nos responde secamente: "la iglesia catedral!" Nada de informação sobre o santo de invocação nela cultuado ou sobre a história da catedral. A mensagem sub-reptícia era óbvia: o que querem estes brasileiros curiosos e irreverentes? Esta aqui é a casa sede da nossa rotina ossificada e necessária e está acabado. Aqui é a casa em que o supremo poderoso abençoa os poderosos cá da terra em nome da ordem imutável e nada de firulas, senhores turistas "devassos".
Mas apenas a algumas dezenas de metros à direita, junto à rua lateral onde se ergue o palácio do governo provincial (velho palacete de um único andar, construído com pátio interno à moda das antigas sedes de fazendas da América espanhola, e com uma arquitetatura mais de quartel que de sede de governo) tivemos o absoluto contraste com a castelhana seca.
Perguntamos à algumas índias que casa era aquela e, como ninguém sabia nos responder, questionei um velho colono, destes de chapéu de palha e calça remendada (verdadeira figura de caipira ou matuto na região nordeste do Rio Grande do Sul) se aquele era o palácio do governo. E o velho, com um sorriso maroto, atravessado por um palheiro típico, nos respondeu: "Es la casa del cabeza grande". Eu, encontrando naquela figura algo familiar a um roceiro brasileiro, resolvi fazer graça e lhe respondi: "dicen por la calle que él (o governador, o 'cabeça grande') también es cuerno!" E o velho, entre sarcástico e socrático, me devolveu: "Se es casado este es un regalo que hace parte".
Ubirajara Passos

criado por ubirajara.passos
01:14:31Na modorrenta tarde de domingo Posadas fazia jus à "siesta" costumeira: ainda que os carros passassem sem cessar junto às mesas externas do café (no centro, não há meio-fio nem asfalto, o calçamento é todo de lajotas e a calçada é dividida do leito da rua por palanques metálicos de meio metro de altura, dispostos a cada vinte centímetros), que se achavam lotadas, o clima dos castelhanos "misioneros" era de um tédio sepulcral. Até mesmo a mais gostosa e jovem loirinha, que se sentava com suas amigas junto à porta, na esquina, à nossa esquerda, tinha aquele típico ar de aborrecimento...
Contaminados pelo humor local (que não sei se deriva do calor abafado da mesopotâmia argentina ou da cerveja servida em baldes de plástico e refrescada por água fria, na qual bóiam cubos de gelo - o que a faz esquentar logo), eu e o alemão Valdir não nos sentíamos também muito inspirados para conversar. As frases eram esparsas, preguiçosas e pulavam de assunto, sem manter continuidade. Mas isto não nos impediu de tomar umas boas quatro Quilmes Imperial de litro.
Por natural inclinação de tarado, e para espairecer o tédio, eu corria o olhar pela rua, procurando um belo par de coxas e seios onde pudesse espanar a poeira do olhar, quando me fixei em uma loira de seus vinte e tantos anos, que em nada se parecia com a maior parte da população local, em que predomina a pele cor de cobre dos guaranis missioneiros. Durante mais de uma hora a contemplei, toda vestida de preto, com uma pele branquíssima e um rosto digno de uma senhora inglesa ou sueca de alguma pintura clássica do final do século XIX. A fascinante figura chamava atenção, além de sua estampa, pelo fato de se encontrar lendo, tendo sobre a mesa uma xícara (chá, como caberia a tal européia imagem, ou um simples café?), e por não erguer os olhos, sequer por um instante, para observar a paisagem circunstante.
Parecia uma estátua ou uma deusa caída na terra, sublime e indiferente ao movimento que a cercava (ainda que não houvesse muito burburinho: não se ouviam gargalhadas estrondosas, nem o falar aos gritos de um típico bar da cidade baixa, em Porto Alegre). E, após um bom tempo, pagou a conta e foi-se embora, sem que em momento algum eu a tivesse visto beber da xícara. Mas o mais estranho (que acabei por notar, apesar da minha distração de DDA) é que, em todo tempo em que esteve sentada na calçada, jamais virou a página do livro!
Mais tarde, no hotel, antes de ir jantar no bar do pançudo, eu e Valdir discutimos a respeito e concluímos: aquela não era uma gata argentina comum, metida a sofisticada. Só podia ser uma espiã da CIA (o que não seria novidade na Tríplice Fronteira, que, segundo os paranóicos yankees, é palco de conspirações palestinas)! Mas se este era o caso, se deu mal! Primeiro que nada teria a descobrir de dois solteirões malucos, metidos a anarquistas, que mal conseguem dirigir a própria vida, que dirá "subversivos" movimentos anti-americanos. Segundo que o disfarce da leitura pecava no essencial: não trocar de página por mais de meia hora denuncia qualquer curioso sentado à mesa de bar! Não posso afirmar que a moça era realmente uma espiã (seria muita paranóia), mas, em todo caso, a CIA devia treinar melhor suas agentes.
Ubirajara Passos

criado por ubirajara.passos
23:13:48