Bira e as Safadezas...

Putarias, meditações, reinas e narrativas de um anarquista heterodoxo

Bira e as Safadezas...

Putarias, meditações, reinas e narrativas de um anarquista heterodoxo
<  Novembro 2006  >
S T Q Q S S D
    1 2 3 4 5
6 7 8 9 10 11 12
13 14 15 16 17 18 19
20 21 22 23 24 25 26
27 28 29 30      
Blogs Favoritos
Receba os posts
Terra Blog

Arquivo de: Novembro 2006

27.11.06

O TÉDIO INSTITUCIONALIZADO

categorias: "Meditações"

     Segunda-feira é um dia que deveria ser varrido do calendário. Juntamente com o domingo. Não há coisa mais tediosa que o descanso "obrigatório" . Se, por um lado, ele  garante ao escravo assalariado, pelo menos, um dia da semana longe da rotina opressora do trabalho (o que, com a reforma trabalhista e as "flexibilizações" do Inácio, pode vir a desaparecer), por outro, "obriga" a peonada (90% da humanidade) a "repousar"  e se "divertir" exatamente no "domingo". E voltar no dia seguinte, sob a presunção de que está "recomposta" mental e fisicamente, à despersonalização e opressão nossa de cada dia.

     Na verdade o capitalismo (o escravismo assalariado) tem como prioridade exclusivamente o luxo, a vadiagem e o sadismo (o prazer de mandar e pisar em alguém) da escassa minoria de senhores "proprietários" (patrões) que se impõem sobre a massa de trabalhadores. O único direito reconhecido ao peão, de fato, é o de estar vivo e a serviço da "gandaia" da classe dominante. É nesta visão que o próprio dia de folga é chamado pela lei de: "descanso semanal remunerado". Note-se bem: "descanso". Não há qualquer menção à "diversão", que (está implícito) é privilégio da classe que vive do trabalho alheio.

     Mas, como ninguém suporta a permanente rotina de desgaste e mero descanso (pela exclusiva vontade do burguês trabalharíamos todo o tempo em que não estivéssemos dormindo, com a mínima exceção para criar novos escravos necessários, na "reprodução" sexual,  e nos alimentar), a "plebe" ainda tenta divertir-se. E, como tudo que é obrigatório, dá com os burros ´n'água. Ou se aliena nos churrascos que se estendem pela tarde (pois a carne, quando não é escassa, é mero pretexto: o que vale é a cerveja) e na assistência dos "Fantásticos" (e outras abobrinhas televisivas) à noite, ou simplesmente cai no tédio. O que dá no mesmo.

     Embora já desacreditado há decadas, no fundo do inconsciente coletivo do Ocidente, paira, ainda por cima, a velha obrigação do "dia do senhor" (domine die, de onde derivou o "domingo" nas línguas novilatinas). Quando a Igreja (a sócia ideológica dos "senhores", que se encarregava, antigamente, de cumprir a missão de fazer a cabeça do "povão", para perfeita submissão ao papel de servo ou escravo) impunha a todos a o fardo de devotar o domingo a "Deus".

     Ou seja, ainda que mecanicamente estabelecida a folga (sem qualquer relação com os ritmos biológicos e emocionais do homem e, portanto, necessariamente alienada e desprazerosa), há uma necessidade enorme da elite dominante em impedir que ela se preste ao prazer legítimo e à reflexão do escravo assalariado.

     A interdição velada ao pensamento questionador e reflexivo (que se dá empurrando milhões de asneiras, cheias de regras sub-liminares de comportamento, através da hipnose rádio-televisiva) é uma necessidade mais ou menos óbvia da dominação. Mas o que surpreende os menos observadores é a proibição indireta do prazer.  Que decorre do próprio caráter mecânico, e apartado da natureza humana, da folga "obrigatória", e fixa, em determinado dia.

     Pois, se o deleite ocorrer de forma genuína (isento dos condicionamentos e "substitutos" anti-naturais como o fumo ou as drogas pesadas), por um instante, a cada semana, que seja, poderá suscitar o desejo de sua repetição. O que estará em frontal contradição com a necessidade de dedicação "séria" e permanente do gado humano ao trabalho que sustenta o privilégios de seus  "donos".

     Se a peonada gostar da coisa pode virar a mesa e colocar abaixo o sistema que a transforma em mero acessório do calendários e dos relógios, em busca de sua "humanidade" perdida em meio às engrenagens da máquinas e computadores. E aí, ai da nobreza burguesa! Sem escravos vai ter também de pegar no cabo da enxada. Boa semana de trabalho para todos!

Ubirajara Passos

26.11.06

QUANDO O TÉDIO VIRA AMOR DESESPERADO

categorias: Poemas

     Havia escrito um desafabo ideológico e antropológico sobre o tédio do "domingo" (cheguei a acordar o meu amigo Valdir para ler o texto antes de publicá-lo), postei-o e, quando fui atualizá-lo, graças à "reina" da Internet, o blog acusou que "a página havia expirado", se apresentou uma tela em branco na minha frente, que eliminei, e já era texto! Não era nenhuma "Brastemp", mas tinha a substância da minha mente e emoção no momento que foi escrito.

     Assim me resta publicar mais uma parte do "estoque" literário. Segue um poema escrito para uma das maiores e mais equívocas paixões da minha vida:

 
Por que insistes nesta fria indiferença,
Aos meus arroubos respondendo com um “te quero como amigo”,
Por que transformas-me a cama em leito funeral
E me condenas a uma vida sem sentido?

Por que me jogas contra a alma apaixonada
A dura frase – “ Eu não te amo,
E, como me queres, nunca adorar-te-ei” –
Se o que me diz a tua boca o olhar desmente?

Por que transmudas em crime o meu carinho,
Quando eu te amo mais do que a mim mesmo?
Por que escondes, sob a fria capa
Da racionalidade inabalável,
Este tremor que te embaraça o gesto
E esta mão que aquece-se aos meus beijos?

Por que permites que o prazer faça-se tormento,
Por que amargas a minha alma insone
Com este “não” que gostaria de ser “sim”,
Te recolhendo à nostalgia do amor de ontem?

Por que condenas-te a viver na aridez
Das orgias frouxas de amor
E nos reduz a medíocres personagens
De uma ópera “policial” de pouco gosto?

Por que não deixas que este amor secreto –
Que, mal contido pelo frígido disfarce
Do teu rosto, se remexe no teu peito –
Possa ao meu peito se arrojar, selvagem,
E conduzir-nos, cálidos, ao Éden?



Gravataí, 7 de fevereiro de 2000 


Ubirajara Passos 

25.11.06

ANGÚSTIA

categorias: Poemas, "Reinas"

     Por mais que a minha mente se ocupe de mil assuntos, sempre há aqueles momentos  em que o tédio e a falta de sentido me invadem sem trégua. O poema de hoje é um retrato típico destes momentos:

ANGÚSTIA



Tédio infinito que me fere a alma,
Melhor seria a morte completa
Do que viver cada segundo inútil
Na angústia de abreviar o tempo,
Na obrigação de suportar o instante morto
Cumprindo o protocolo de existir.

A extinção do próprio ser é bem terrível,
Porém pior do que ela é odiar a vida:
Querer eliminar tempo do que resta,
Gastando o saldo insosso de existência
Na náusea sem limites dela mesma.

Também a dor cruciante clama à morte,
Como remédio único aos seus transes.
Mas ele mesmo, o sofrimento desmedido,
É mais benéfico, ainda, que tu, tédio –
Maldito algoz que nulifica a alma
E faz-me em vida morto, conscientemente.

Por que não vens, ó Tânatos cretino,
Num golpe inesperado o ser furtar-me
Deste vazio que injustifica tudo,
Ou, pelo menos - como a covardia
Não me permite o próprio suicídio -
“Assassinar este poema horrível?”




Gravataí, 20 de setembro de 1999

Ubirajara Passos

24.11.06

ÁUREO FANTASMA

categorias: Poemas

     Se no último poema publicado se encontra a mulher "abstrata e universal", a característica psicológica primária que se identifica com o modelo construído concretamente no imaginário social do "feminino", no poema de hoje trato da mulher de carne e osso, ainda que envolta na meia-luz da fantasia.

    Como os leitores devem ter notado, os meus poemas anteriores a 1997 padecem de um certo formato "clássico" (no sentido de corresponder a grandes modelos pré-estabelecidos e consagrados) e distante do quotidiano. Pois foi com este poema que os eventuais leitores da época, colegas de trabalho e alguns amigos, reconheceram, pela primeira vez, a mudança do meu estilo para algo mais vivo e próximo da sensibilidade sem frescuras.

ÁUREO FANTASMA





Era pura poesia aquele anjo
Do céu caído. O ar dormente, vago,
Com que encarava o mundo a sua frente
Prometia-me mil êxtases celestes,
Na aura loura de sua cabeleira,
Em que, transparecendo, o luar dourava-a.

Quanto mistério, quanta dor profunda
Vive, ignota, talvez, sob esses cachos.
Quanta lágrima ardente, sufocada
Na quotidiana opressão, quanta desgraça...
E eu, no entanto, só via, em sua beleza,
A encarnação apaixonante do sublime.

A realidade nunca saberei.
Os meus próprios recalques, o clamor
Paralisante da rotina me deteve
E deixei-a ir sem abordá-la.
Da linda mulher de carne e osso
Restou somente o eterno enlevo do momento.


Gravataí, 19 de julho de 1999.

Ubirajara Passos

23.11.06

MUSA

categorias: Poemas

    Segundo Carl Jung todo homem possui em sua mente uma "mulher" interior, que encarna os valores da sensibilidade e da subjetividade, e que é uma ponte entre a inconsciência e o reino da fantasia e dos arquétipos (personagens interiores constituídos de padrões universais de energias emocionais e padrões de comportamento específicos comuns ao imaginário inconsciente de toda humanidade).

     Embora tenha lido o primeiro livro junguiano ("We - a chave do entendimento do amor romântico", de Robert A. Jonhson) em 1993, ao escrever o poema seguinte não me dei por conta, na época, do quanto ele retrata esta "personagem interior", a Anima. Agora que já torrei a paciência dos leitores com a minha explanação psicológica "caipira", vamos ao poema:

MUSA

Na invernal noite, de séculos de idade,

Perdida vive minha fantasia:

Um vento gélido na praça iluminada

E, esvoaçando às inquietas rajadas,

A capa vermelha de uma adolescente.

Bela, intrigante é sua face clara,

Por negras madeixas adornada,

E, cintilando mais que a claridade

Das lâmpadas de forma globular,

Uma sensibilidade embriagante

Escapa de seus olhos e ofusca

Todo o arvoredo sob um mar de esmeralda.

Todo seu vulto, me meio à pétrea praça,

Respira um ar terno de fragilidade

E, simultaneamente, nos transmite

A determinação inquebrantável

De um ser que é pura rebeldia e liberdade.

Na maciez rubra de seus lábios cálidos,

Emoldurando-lhe o níveo sorriso,

Vibra o ímpeto mal-contido de paixões,

Fundido à leve e delicada poesia.

Esta musa estelar de pura ficção

É toda a obessão de minha alma.

Nela, o próprio pensamento apaixonado,

Está a fonte que há de saciar

De sua vã e eterna busca o meu espírito:

A poesia da interioridade.

Gravataí, 9 de abril de 1995

Ubirajara Passos